Nós queremos uma escola. Essa foi a frase do diretor do Colégio
Estadual Beatriz Faria Ansay para a reportagem da APP-Sindicato. Para ele,
escola significa estrutura adequada para a prática profissional, condição que
inexiste no local onde o colégio estadual, situado no bairro Tatuquara, em
Curitiba, foi instalado. Apesar de informar que recebeu R$ 14.250,00 reais para
reformas urgentes no imóvel alugado que abriga a escola há 5 anos, isto é, para
substituir as paredes em madeirite que dividem as salas, é preciso muito mais.
Na próxima semana, o diretor se reunirá com a Secretaria de Estado da educação
(Seed) para dar início ao processo de construção do antigo prédio da escola.
Enquanto isso não acontece alunos professores e
funcionários da escola permanecem em um ambiente com condições insalubres para o
exercício da profissão e da aprendizagem. De acordo com o diretor Manoel
Pereira, o prédio para onde o colégio foi transferido é um antigo centro
comercial. Alugado desde 2006, foi reformado para atender a demanda da
comunidade. No entanto, o espaço, além de inadequado, possui somente 12 salas para comportar 1.200
alunos, e é repleto de irregularidades que comprometem tanto a saúde dos
profissionais da educação como dos alunos.
"Escola adequada é aquela que oferece estrutura adequada
para a prática profissional. Aqui não é assim. Do jeito que está a nossa escola
compromete a qualidade de ensino, a aprendizagem dos alunos e a saúde dos
alunos e dos profissionais da educação, além de afetar a auto-estima e a
motivação dos profissionais que aqui trabalham", desabafa o professor de
história Gerson Luiz da Cruz.
"O que nós queremos é uma escola", confessa o diretor. "Uma
escola que ofereça condições dignas de trabalho é aquela que tem salas de aulas
adequadas, bibliotecas, refeitórios, cantinas, laboratórios de informática, espaço
físico para as crianças fazerem prática esportiva, entre outras coisas. Isso é
ter condições de trabalho. E isso nós não temos", explica.
Sala comercial - Segundo ele, para que o imóvel comercial se
tornasse temporariamente a sede da antiga escola foram realizadas algumas adaptações.
As salas escolares, projetadas para atender 800 alunos - dividindo-as em turmas
de 24 alunos e não 32 como são atualmente - foram divididas com madeirite. Ao
longo desses anos, as 'paredes', por conta do grande fluxo de alunos, estão
em péssimo estado: arrombadas, rasgadas, furadas e sem portas. O recurso para a
substituição das mesmas acabou de chegar. Os R$ 14.250,00 reais resolverão, mas
este é apenas um dos problemas.
Entre os outros problemas elencados pelos professores
Claudia Pietrobon, Alex Ferreira Garcia, e Elenita Dupont estão: falta de
ventilação, iluminação precária ocasionada pela ausência de janelas, quadros no
chão, ou apoiado em carteiras, e sem condições de escrever a giz, quadra sem
pavimentação - o que leva o pó para as salas, deixando o chão sujo-, ausência
de espaço para recreação e prática esportiva, fiação exposta e desencapada,
existência de apenas um banheiro masculino e um banheiro feminino para ser usado
num intervalo de 15 minutos, entre outros.
"A biblioteca e o
almoxarifado são a mesma coisa: um depósito de livros e alimentos", declara a
professora Claudia. "É um ambiente insalubre.
Tanto para professores como para os alunos ",
completa o professor Alex e finaliza a professora Elenice: "Não parece
um ambiente escolar. E à noite o
problema triplica. Temos aluno em sala
de aula que não sabemos se está armado, drogado, alcoolizado", relata.
O professor Gerson explica que essa situação acarreta uma
série de doenças para os profissionais da educação, sobretudo o professor.
Segundo ele, que já se afastou da atividade por conta do estress, as péssimas
condições de trabalho têm causado estress, problemas vocais, depressão, desgaste
físico e emocional, entre outros. "Perdemos toda a vontade de lecionar e o
ânimo para exercer a atividade. Essa situação nos faz sentir cada vez mais
desrespeitado como profissional da educação e como ser humano", desabafa.
Urgência - Em resposta a tantos problemas, o
diretor afirma que faz o possível para administrar os recursos e, dessa forma,
melhorar as condições de trabalho para os 34 professores e 31 funcionários de
escolas e as condições de aprendizagem para os alunos. "Fazemos de tudo para
que essas crianças possam ter o mínimo de condições de estudar. Agora tem
coisas que fogem do nosso orçamento. Que não cabe a nós. O dinheiro que vem a
gente gasta da melhor forma. Procuramos fazer o melhor para que eles possam se
sentir bem, mas esse espaço, definitivamente, não tem condições. Queremos que a
nossa escola seja construída já", frisa.
A secretária de Políticas Sociais, Silvana Prestes, o
assessor da pasta, Jaime Tadeu da Silva e o secretário de Imprensa da APP-Sindicato, Luiz Carlos Paixão, que estiveram presentes na escola nesta
terça-feira (9/02), reafirmam que a situação é próxima do caos. Segundo Silvana,
faz 5 anos que a comunidade escolar reivindica o prédio da escola, mas sem
êxito nas negociações. "Vamos avançar na construção do antigo colégio por meio
de mobilização. Por isso, estamos organizando uma equipe com representantes da
Seed, da APP e de pais alunos, professores, funcionários e da comunidade com o objetivo
de iniciar e agilizar o processo de negociação para por fim a tantos
problemas", declara.
Para Luiz Carlos Paixão, a situação caótica da escola não é um fato novo. Segundo ele, a APP vem recebendo reclamações por meio do núcleo sindical Curitiba Sul há tempos e a direção estadual, além de acompanhar o caso, tem sido uma aliada permanente na solucão do problema. "É lamentável que educadores e estudantes sejam expostos a essa situação que não condiz com a qualidade da educação pública que sempre defendemos. A APP será uma aliada da comunidade escolar e, junto com a Seed, vai procurar solucionar esses problemas o mais rápido possível", finaliza.
Violência - Segundo relatam os educadores, nem
muro havia para cercar o colégio quando foram transferidos para a nova sede.
Ele foi construído após um tiroteio ocorrido em 2008. Na ocasião, um grupo de pessoas
(não alunos) entrou no prédio e motivado por uma briga um dos integrantes sacou
a arma, deu tiros e fugiu, deixando marcas nas paredes, que se mantem até hoje.
Também houve três assaltos. Os roubos aconteceram no ano
passado quando os bandidos levaram equipamentos que faziam parte do Programa Paraná
Digital. Ao todo foram levados 7 computadores e periféricos dos mesmos (caixa
de som e teclados) e 4 impressoras. Além de aparelhos de som, telefone, microondas,
entre outros. O que levou o diretor
contratar uma empresa de segurança e monitoramento por meio de câmeras. "Colocamos alarme com o dinheiro da APMF
(Associação de Pais, Mestres e Funcionários). Nestes dois primeiros meses,
inclusive, tive de pagar 190,00 reais do meu bolso para pagar a manutenção,
pois como é um período de férias a APMF não tinha recursos", revela.
Os educadores e a comunidade escolar protestaram contra a
falta de segurança. Fizeram
mobilizações e fecharam a BR que fica no entorno. Com a iniciativa conseguiram a construção do
muro, mas não estão livres dos assaltos. À noite estão mais sujeitos à
violência, pois próximo ao local declaram que existe um bar freqüentado por bêbados
e drogados.
Entenda o descaso - O local onde funcionava o Colégio
Beatriz Faria Ansay foi demolido em 2005, com a promessa de ser reconstruída em
pouco tempo. Naquele período, os alunos
foram transferidos para a escola municipal Leonel Brizola, que ficava a 2 quilômetros. Os
alunos do período noturno foram para outra escola mais próxima, a Escola
Municipal Professora Érica P. Mlynarczyk. Naquele período, segundo o diretor, houve
um caso de estupro que teve como vitima uma aluna do período da manhã.
Das três empresas que foram licitadas para assumir a
reforma e ampliação do antigo prédio, nenhuma delas conseguiu finalizar as obras.
"O projeto tem que ser refeito. Ele está na Seop (Secretaria de Estado de Obras
Públicas) para a aprovação do orçamento, mas não temos previsão de quando vai
sair do papel", explica o diretor.
Desde 2006, alunos estudam em um imóvel comercial
improvisado. Este tornou-se um espaço sem estrutura para atender a demanda,
precário, além de estar muito longe de ser chamado, na acepção da palavra, de colégio.
Confira as fotos do local
Veja reportagens
sobre o colégio:
Sobre o último assalto (14/10/2009).
Sobre a entrega do prédio do colégio para agosto de 2009 (30/03/2009).